A interface continente-oceano
Luiz Drude de Lacerda
INCT de Transferência de Materiais Continente-Oceano
O gerenciamento costeiro dos estados litorâneos tem sido fundamental para o uso sustentado de seus recursos e serviços. Entretanto, ainda não são plenamente abordados na esfera deste modelo de gestão aquelas alterações e impactos ambientais causados na zona costeira por atividade antrópicas localizadas em bacias de drenagem fora do litoral. Isto demonstra que o zoneamento e gestão do litoral ainda não são realizados ao nível integrado desejável, o que resulta em conflitos de utilização dos seus recursos hídricos, geológicos e biológicos associados, incluindo a pesca e a aqüicultura, e a depreciação do capital natural de seus ecossistemas. Dentre as alterações, aquelas relacionadas às mudanças na quantidade e qualidade dos fluxos continentais de água, sedimentos e seus constituintes químicos para o oceano através dos rios representam o principal vetor de impactos ambientais. Os rios representam a principal ligação entre o continente e o mar na maioria dos ciclos biogeoquímicos; sustentam a produtividade das águas costeiras através do aporte de nutrientes essenciais; regulam mudanças climáticas de longo prazo através da absorção do CO2 liberado pelo intemperismo continental e suportam a biodiversidade dos sistemas aquáticos estuarinos e costeiros. Por outro lado, os rios são também a principal via de contaminação de áreas costeiras e estuarinas por poluentes gerados no continente.

Figura 1. Alguns dos principais vetores de origem antrópica e seus impactos que atualmente moldam a resposta da zona costeira em conjunto com o arcabouço geoambiental. No sentido horário: sedimentação acelerada de estuários; despejo de efluentes antrópicos; barramento de rios; erosão de manguezais; sedimentação e colonização por manguezais.
Diversos processos ambientais e atividades socioeconômicas realizadas na zona costeira são indiretamente afetados pelas atividades e usos das bacias de drenagem, mesmo quando distantes do mar (Figura 1). Exemplos significativos são as bacias de drenagem que recebem efluentes de diferentes atividades urbanas e agrícolas e/ou que possuem grande parte de seu fluxo controlado artificialmente. Como resultado, a zona costeira forma um mosaico de condições ambientais que resulta em respostas integradoras dos diferentes vetores e mecanismos de transferência atuantes (Figura 2) e que requerem tratamento diferenciado no que diz respeito a seus usos potenciais, estratégias de exploração de seus produtos e serviços, gerenciamento ambiental e preservação e conservação de seus recursos.
Ao longo do transporte no continuum continente-oceano, diversos processos físicos, químicos e biológicos, de origem natural e/ou antrópica podem alterar as formas geoquímicas originais dos materiais transportados entre os diferentes compartimentos; atmosfera, solos e sedimentos, águas e biota (Figura 2). A transformação das bacias de drenagem por atividades antrópicas atinge tal nível de alteração que estes importantes sistemas para o funcionamento do planeta são, atualmente, controlados por forçantes antrópicas e não mais apenas por forçantes climáticas, pedológicas e geológicas inerentes às propriedades da bacia de drenagem (Figura 1). Assim, a acumulação de matéria orgânica, nutrientes, e metais-traço, o balanço de gases de efeito estufa, e seus respectivos ciclos biogeoquímicos serão fortemente afetados pelos usos da terra, incluindo agropecuária, usos urbanos e industriais, mineração, geração de energia hidroelétrica, pesca e aqüicultura ao longo das bacias.

Figura 2. A interface continente-oceano é uma área crítica para a remobilização de matéria orgânica, nutrientes, contaminantes e mudanças em sua biogeoquímica devido às mudanças regionais nos usos da terra e às mudanças climáticas globais. A figura representa a organização conceitual das interações e vetores atuantes ao longo deste continuum.
Menos conspícuos que os vetores atuantes nas bacias de drenagem, as forçantes marinhas têm sido pouco integradas aos estudos voltados ao desenvolvimento sustentado da região costeira, embora possam também modular as respostas ambientais, dependendo das condições oceanográficas atuantes (Figura 3). Uma das principais características das regiões costeiras é a capacidade de modificar consideravelmente as marés e as correntes de maré, se comparadas às águas oceânicas profundas, sendo em geral bastante amplificadas (com ressonâncias em alguns casos). As correntes geradas pelo vento são também muito afetadas devido ao atrito com o fundo e com a linha de costa; em casos extremos podem ser geradas ressacas, ressurgências e jatos costeiros. Assim, devido à forte ligação entre os processos costeiros e fenômenos que ocorrem na plataforma continental, o conhecimento dos processos físicos que regulam as forçantes marinhas, e.g. campo de correntes e da estrutura termohalina, é de fundamental importância para uma melhor compreensão dos ambientes costeiros.

Figura 3. O estudo dos processos oceanográficos, particularmente sobre a plataforma continetal é fundamental à compreensão do funcionamento dos processos biogeodinâmicos ocorrentes na interface continente-oceano.
Apesar da constatação relativamente óbvia da necessidade de intensa transversalidade entre programas de investigação voltados à compreensão da resposta da zona costeira às diferentes forçantes ambientais de diferentes origens, e de sua inserção no cenário do Antropoceno, a maior parte dos estudos realizados até o momento ainda é insuficiente, pouco detalhada e, portanto, insatisfatória. Este quadro dificulta o relacionamento das respostas da zona costeira às alterações ocorridas nas bacias de drenagem fora da região litorânea propriamente dita e da modulação impingida pelas mudanças globais, principalmente através de fenômenos ocorrentes sobre a plataforma continental. Assim, apesar dos avanços obtidos por programas como do Instituto do Milênio Estuários, SAmBas-LOICZ, entre outros, torna-se ainda no país extremamente difícil a construção de cenários confiáveis para a gestão e uso dos recursos costeiros, dificultando e mesmo inviabilizando a geração de políticas públicas e legislação concernente visando o desenvolvimento sustentado da zona costeira. O Instituto nacional de Ciência & Tecnologia de Transferência de materiais Continente-Oceano tem como principal objetivo subsidiar o conhecimento necessário ao preenchimento destas lacunas e a construção de cenários consistentes.
Sugestões para leitura:
- Crossland, C.J.; Kremer, H.H.; Lindeboom, H.J.; Marshall-Crossland, J.I.; Le Tissier, M.D.A.I.E. (2005). Coastal Fluxes in the Antrhopocene. The Land-Ocean Interactions in the Coastal Zone Project of the International Geosphere-Biosphere Programme. Springer, Berlin. 231p.
- Lacerda, L.D., Santelli, R.E., Duursma, E.K. & Abrão, J.J. (2004) Facets of Environmental Geochemistry in Tropical and Subtropical Environments. Springer Verlag, Heidelberg, 382 p.
- Lacerda, L.D.; Kremer, H.H.; Kjerfve, B., Salomons, W., Marshall-Crossland, J.I., Crossland, J.C. (2002). South American Basins: LOICZ Global Change Assessment and Synthesis of River Catchment – Coastal Sea Interaction and Human Dimensions. LOICZ Reports & Studies No. 21, 272 p.
- LOICZ-Science Plan and Implementation Strategy (2005) Land Ocean Interactions in the Coastal Zone. IGBP Report 51/IHDP Report 18, LOICZ, Texel, 60 p.
- Seeliger, U. & Kjerfve, B. (2001). Coastal Marine Ecosystems of Latin America. Springer Verlag, Heidelberg, New York. 360p.
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